domingo, 13 de dezembro de 2009

"Não são mais dois, mas um só", para com isso!


Muito se tem lido sobre o casamento e os problemas da vida conjugal. Quero lhe passar impressionantes considerações de Jung sobre o tema. Deixo-o com ele.
"Usualmente no casamento, especialmente quando as pessoas se casam jovens, uma relação individual é impossível, os dois se tornam muito parecidos. Mas para um par idêntico, nenhum relacionamento é possível, a convivência só funciona bem quando há diferenças. Assim, desde que a participation mystique ('e os dois se tornam uma só pessoa') é a condição tradicional de um casamento o casal termina insatisfeito; o mana de um assimila o mana do outro. Esta identidade comum, este estado de união, é um grande obstáculo ao relacionamento prazeroso. Talvez os dois escondam seus segredos um do outro ou talvez não tenham segredos para partilhar; então não há nada para protegê-los da participação mística, afunda-se ao buraco mais fundo da identidade e depois de um tempo se percebe que algo está errado. A relação sexual com sua esposa não funciona: ela o mantém tão distante quanto possível, e aos quarenta e sete anos ter sempre o mesmo trabalho de ir para cima de uma mulher ou de um homem que nos é bem conhecido é algo terrivelmente desinteressante. Portanto é uma situação desprazeirosa. Então, tanto o homem quanto a mulher buscam a sublimação. Sua tentativa tanto com uma devoção religiosa quanto com os estudos ocultos é parecida com a idéia de sublimação de Freud - um intercurso com os anjos. A Teosofia ou a religião levada a sério provê um escape. Se eu pudesse ouvir as vibrações da Atlântida, escutar a conversa dos mestres pedreiros no antigo Egito ou conversar com os santos e os espíritos eu esqueceria tudo sobre minha esposa e tudo sobre meus prezados pacientes também! A Teosofia é um tremendo chamariz para tal homem (como a religião para a mulher), e sublimação é uma boa palavra para descrever tal coisa; mas insuficiente, na realidade a sexualidade não pode ser inteiramente sublimada. Repentinamente, um dia, ele ou ela comete um erro, a sublimação não funcionou naquele momento. Então vem o sonho. A sombra aparece e diz: ‘Agora venha, vamos olhar os verdadeiros quadros do inconsciente, as figuras reais, imparciais, das coisas como são’".
Há muitos anos eu e Lili vivemos puxando um para cada lado, para sentirmos a felicidade da individualidade. "Chegamos sós neste mundo e partimos sozinhos", é uma máxima bem antiga.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ainda não é o fim


Os argumentos humanos mudam sempre ao sabor do momento histórico. Veja a explanação de santo Agostinho no livro Cidade de Deus que começou a escrever dois anos depois da invasão de Roma pelos visigodos: " La Ciudad de Dios, está destinada a probar que las invasiones bárbaras no han sido una calamidad excepcional; que las guerras y matanzas son de todos los tiempos, y que los romanos contemporáneos no tienen por qué sorprenderse de ellas si se sienten más débiles que los bárbaros".
Percebeu? Não? Uma das razões para escrever seu livro de 700 páginas foi a de exortar aos cristãos católicos, que perderam quase tudo no saque perpetrado pelos bárbaros, que aquilo não era sinal de um próximo fim do mundo nem de que foi um castigo divino o sofrimento que afligiu tanto ao adorador politeísta quanto ao que acreditava ser Jesus, um judeu da longínqua Galiléia, o filho do único Deus enviado a Terra. "Basta ya de pecar y murmurar. ¡Qué vergüenza que anden los cristianos lamentándose de que Roma ha ardido en época cristiana. Roma ha ardido ya tres, veces: bajo los galos, bajo Nero y ahora con Alarico. ¿Qué sacamos de irritarnos? ¿Para qué rechinar de dientes contra Dios?”
Que diferença dos pregadores que querem subjugar as pessoas pelo medo do fim do mundo! Esquecem a História. Não querem ver que desde o princípio, quando a poeira estelar se ajuntou para formar o planeta, por diversas vezes cataclismos quase eliminaram a vida na Terra, mas ela sobreviveu. Assim são as palavras, mutáveis e poderosas.
PS. A pintura renascentista erra ao mostrar um livro no colo de santo Agostinho, no seu tempo ainda não havia sido inventado esta forma de publicar as palavras, usava-se códice, as páginas enroladas.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Falando com um deprimido


O psiquiatra Augusto Cury falando sobre depressão ensina que ao falar com alguém nesta situação não se deve ser condescendente ou trata-lo como um “pobrezinho” e aconselha a falar assim: “Quem disse que você é uma pessoa frágil que esgotou o prazer de viver? Ou um pobre que não consegue carregar o peso das suas perdas? Para mim você não é nada disso. Para mim, você é apenas um homem orgulhoso, alienado de misérias maiores que a sua”.
Cury diz que sua experiência com este modo de tratar o deprimido teve, entre outras, a seguinte resposta: “Um triste homem disse que na hora que falei isto pensou no pai que lhe esmagara a infância e lhe causara muita dor. Viu-o como uma pessoa emocionalmente distante, alienado e enclausurado em si mesmo. Ao ver que tinha tocado numa ferida profunda diminuí o tom de voz: ‘Eu respeito a sua dor. Ela é única e só você consegue senti-la. Ela te pertence e a mais ninguém’. Ele ficou quieto por um tempo e falou que sempre condenara veementemente seu pai, mas que começou a vê-lo, pela primeira vez, com outros olhos. Então lhe disse: ‘Para mim, você também é um ser humano corajoso, pois tenciona afastar-se do mundo e de tudo o que ele oferece e deixar sua família, trabalho e sonhos. É sem dúvida uma bela ilusão’”.
Mas a batalha contra a depressão não é ganha tão facilmente. O homem reagiu. “Já escolhi este destino. Não tenho mais esperança”. Ao que o doutor revidou: “Você já se sentenciou a viver num limbo? E nem se deu o direito de defesa? Porque não se dá o direito de argumentar com seus fantasmas, encarar suas perdas e lutar contra suas idéias pessimistas? Você é realmente injusto consigo mesmo!”
Então, o homem lembrou que já havia procurado a ajuda de outros psiquiatras e psicólogos, mas nada tocava seu rígido intelecto, nenhuma explicação conseguiu retirá-lo do seu atoleiro emocional. O médico então desferiu uma saraivada de perguntas: “Somos apenas um cérebro organizado ou temos uma psique que coexiste com o cérebro e transcende seus limites? Que religioso pode viver sem fé? Que neurocientista pode argumentar que lhe é bastante a especulação científica? Que ateu pode defender suas idéias contra Deus sem nem um pouco de insegurança? Sabe, somos dois ignorantes, a diferença entre nós é que eu reconheço a minha”.
São tantas as pessoas com depressão hoje em dia, que bem podíamos usar esta abordagem com alguém assim que apareça em nosso caminho. Mas com bastante empatia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Nascimento de uma estrela


Os astrônomos já conhecem bastante das técnicas que o grande Arquiteto do universo usa para criar uma estrela. Quanto o ser humano teve de aprender para chegar ao tempo do telescópio Hubble! No livro Saber, o Tesouro das Nações fale de Kinidu (340-282 a.C): “Foi o chefe da escola de astronomia de Sipar, cidade babilônica. Descobriu os equinócios e calculou a velocidade da Lua e dos planetas em valores bem aproximados dos que se conhecem hoje. Desde o terceiro milênio a.C os caldeus estudavam o firmamento para a previsão das chuvas, do frio e das estações. Imagine um homem aguardando com ansiedade o cair da noite para acompanhar o desfile dos astros, tendo como instrumento uma tábua de barro macio, algumas cunhas com acabamento diferente na ponta para imprimir caracteres no barro, uma vara com medidas e toda a atenção no céu! A cada noite ele aprendia mais alguma coisa sobre o comportamento de um astro individual, um conjunto deles ou a relação entre eles, registrando tudo. Kidinu, como seus antecessores, passou a reconhecer oito órbitas: do Sol, da Lua, dos cinco planetas (conhecidos) com seus movimentos erráticos e o conjunto dos outros astros. Pesquisou os pontos cardeais, entendeu as fases da Lua, predisse eclipses do Sol e da Lua e estudou 52 grupamentos de estrelas. Mas não sabia que elas nasciam e morriam diante de nossos olhos”.
Agora se sabe que as estrelas morrem em grandes explosões e que a poeira e o gás delas começa um movimento de rotação que aglutina esta poeira formando uma nova usina nuclear para produzir novos elementos atômicos. E o arquiteto disto tudo é realmente G.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma brecha no passado


O alemão Günter Grass escreveu alguns romances famosos, que ele prefere chamar de fábulas. Estou lendo um de seus livros pela segunda vez. É a história da Polônia, principalmente da parte do seu litoral onde fica o estaleiro Gdansk. Mas o faz de uma maneira diferente. Seu personagem, também escritor, conta a história daquela região revisitando suas vidas passadas, falando da sua esposa em cada existência e das comidas preparadas por elas. Começa no neolítico com a rechonchuda Ava. O livro tem 640 páginas, mas vou lhe falar só de uma delas.
Nesta atual existência, quando estudava a oitava série, o personagem tinha um professor de latim sem entusiasmo (como também tive). A turma, para se ver livre das declinações: hic, haec. hoc, levava o mestre a discutir um assunto de que gostava, e assim ficavam sem a aula chata. Com meu professor, que foi padre, discutíamos a alma humana, com o dele o assunto era a beata Dorothea de Montau. No livro, o moço desenvolve uma tal atração pela mulher que viveu no século 14 que chega a conclusão que viveu com ela, foi seu marido bem mais velho do que ela, o forjador de espadas Albrecht Slichting. Durante a vida em comum ele não a compreendeu, bateu nela e não a protegeu de ser emparedada viva pelos monges dominicanos. Ele conta: “Eu confio em minhas lembranças pessoais e experiências dolorosas com Dorothea, pois eu fui, antes durante e depois da peste negra, aquele forjador de espadas cujo esforço de artesão e o pouquinho de prosperidade que amealhou foi destruído pela generosidade dela em todas as igrejas, leprosários, abrigos e hospitais”. Se naquela existência ele não soube ser um marido que a amparasse em seu desenvolvimento espiritual, hoje ele a compreende e se arrepende. “Dorothea foi a primeira mulher em nossa religião que se revoltou contra a pressão do direito paterno no casamento medieval. Pois só isso ela queria: ser livre”. Dorothea foi cananonizada em 1976.
Corre-se tanto duante a vida que raramente temos percepção de uma brecha que se abre para vermos uma existência passada que está gravada em nossa psique, nossa alma. Preste atenção: quando uma coisa vista na TV, numa revista ou em um filme lhe despertar um atenção especial é bem possível que você esteja entrando em sintonia com uma experiência em sua rica biblioteca de vidas passadas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Evolução de novas formas de vida



Há 250 milhões de anos, época que a geologia denomina fim do Permiano e início do Triássico, aconteceu uma tremenda extinção da vida, tanto no mar quanto na terra firme. Doutores especializados se dividem sobre as causas. Uns dizem que a extinção foi gradual e causada por um fungo que se disseminou pelo planeta. Outros defendem uma mortandade rápida causada por um choque de um cometa ou asteróide com a Terra. Um terceiro grupo acha que houve as duas coisas em um período de 5 milhões de anos o que eliminou 96% dos seres que a Natureza havia desenvolvido com muito esforço e por necessidade.
Era tempo da Pangea, um só grande continente. Os animais da época evoluíram vagando por um enorme terreno continental e por um só oceano. Eram feios os animais que se desenvolveram naquela vez. Na terra seca os Lystrossauros e no mar os braquiópodes Língula. De alguma forma aquele ecossistema primitivo deu margem para o surgimento daqueles feiosos. Mas então o clima começou a mudar (daquela feita o homem não foi o culpado) e morreram quase todos. Mas a vida subsistiu em formas bem simples no planeta. O apóstolo Paulo falando de outra coisa descreve sem querer o que aconteceu há 250 milhões de anos: “Quando se semeia uma semente na terra ela só brota se morrer e o que está semeado não é o corpo que vai se desenvolver”.
A Pangea começou a se fracionar. Os continentes separaram-se vagarosamente. Ecossistemas diferentes se formaram e a vida, desenvolvendo-se em terrenos isolados evoluiu em muito mais espécies e bem mais bonitas. Agora, passado 250 milhões de anos, o homem, o ápice desta nova evolução da vida no planeta, se arvora em um deus e muda o clima e mexe com os ecossistemas. De novo corremos o risco de ver a vida no planeta correr um sério risco de desaparecer. Talvez para surgir seres mais belos?
Há alguns anos, em Juiz de Fora, visitei o médico de uma clinica Antroposófica e fiquei intrigado quando ele me falou que sua seita acredita que desde que a Terra surgiu das forças de gravidade e centrifugação, e depois que a vida foi plantada no planeta já se desenvolveram várias raças de seres inteligentes, cada uma dominando um período evolutivo. Ele disse isto tudo de modo muito complicado e, eu mesmo, não tinha a menor noção destes períodos de ecossistemas, mal conhecia os períodos geológicos.
Agora cientistas usando programas de computador tentam desvendar como será o novo reagrupamento dos continentes, o fim dos ecossistemas atuais e os seres que se desenvolveram sob as novas condições do planeta.

Amando o outro e a si mesmo


Na Bíblia, o casamento é tratado como um pacto para um crescimento espiritual do casal. O apóstolo Pedro escreveu para os seguidores de Jesus: “Esposas, obedeçam a seus maridos... Maridos reconheçam que suas esposas devem ser tratadas com respeito”. (primeira carta capítulo três)
Mas os sentimentos misturados com pensamentos vão mais longe. No livro de Pierre Drieu la Rochelle, Diário de um Homem Traído, a personagem diz para si mesma: “Quando nos vimos pela primeira vez, nos prometemos, sem dizer a nós mesmo, arriscar o impossível e conseguir... um amor que dura. Que esforço ele fez! Pois com certeza o amor é um trabalho. Será que uma mulher tem o direito de enclausurar um homem desse jeito, de fazer a festa sozinha com suas idéias e sua capacidade? Sozinha, frequentemente estive sozinha. Tudo separa um homem e uma mulher, principalmente o trabalho. Sei que esta viagem é para ele uma espécie de férias; ele é um menino. Porque ele entra em êxtase diante de uma tola como eu?”
E o personagem reflete consigo: “Você me deu algo magnífico, você me deu o máximo que uma mulher pode dar a um homem: acima de um capricho de moça, uma paixão de mulher. Pronta e perfeitamente nossos corpos se entenderam. Nossos gostos não se contrariaram e até se auxiliaram. Você nem pensa em me deixar ou, se pensa (pois quem não acolhe em algum momento a idéia de abandonar todo mundo e ficar só?) afasta a idéia. Você gosta de ficar sozinha comigo. Apesar das obrigações, é extraordinário como conseguimos ficar sós ouvindo música ou lendo. É aqui que eu quero chegar. Você nunca me traiu e nunca traí você. Palavra miserável, como se dois seres que realmente vivem um dentro do outro pudessem se enganar. Só se enganam os que se ignoram”.
Estes pensamentos no outro também são uma forma especial de se elevarem espiritualemente.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Separação


Por que uma mulher vive anos com um homem e só então busca a separação? No conto Um Bom Casal, de Pierre Drieu la Rochelle diz: "Aqui, uma modéstia e uma resignação prevaleceram. Ela pensou que não havia nada a fazer senão manter a escolha, continuar tirando partido do que podia lhe dar este amigo de todos os dias. Quanto ao resto, pois o prazer cortado na raiz acabara sendo o resto, com um pouco de tato e sorte podia se ajeitar". Este livro é de 1934, então fala de um tipo de mulher que não existe mais, ou são em menor número. Hoje, uma jovem esposa percebe muito depressa o que a esposa desta história levou anos para ver. "Ela entreviu nitidamente a infinita carência e miséria que disso resultariam, para alma e para o corpo". Numa relação esgarçada assim ambos são responsáveis. Faltou empatia e principalmente um esforço. "A potência de um ou do outro teria podido fundir um grande ser crescente, entrelaçando particularidades corporais e espirituais". Em muitos casos o homem vive se "esforçando para diminuir a mulher, mas não se engana com essa manobra que só faz aumentar o sentimento deplorável que tem por si e se vê inteiro, tal como é na realidade, nos olhos arregalados dela".
Os dois seres, que continuarão por séculos e séculos, terão de resolver com bastante esforço esta falta de competência.

Mediocridade


Já notou quantos casais juntos muitos anos se separam? No livro Diário de um Homem Traído, Pierre Drieu la Rochelle, conta a versão das mulheres. "Ela refletira longa e gravemente. Não estava violentamente ressentida com ele; ainda conservava alguma satisfação de vê-lo diariamente. Não se espantou que assim fosse pois sempre se conhecera tenaz e flexível. Ela via, porém que, em seu interior, desenhava-se uma divisão muito nítida e definitiva; pensou que podia adaptar-se muito bem a esta divisão. A velha separação entre o corpo e alma que começa com a mediocridade; a fraqueza da maioria dos homens, que seu marido não quisera dominar para o bem deles dois".
Uma manhã, conversando com o psiquiatra Adilson Costa, em sua clínica em meio a velhas mangueiras, ele me disse que "a maioria das famílias levam a vida despreocupadamente sem perceber que assim estão ajuntando formidáveis problemas". Ele sabia bem do que falava perdendo incontáveis noites de sono para socorrer famílias esgarçadas a ponto de a mediocridade de sua maneira de vida conduzir um dos membros a morte. Quando Faustão brinca dizendo, "minha senhora, este seu marido deitado neste sofá ainda de pijama", ele está lembrando que esta maneira fácil e medíocre de viver está prejudicando o desenvolvimento espiritual de alguém e, com isto está amontoando uma dívida que lhe exigirá mais esforço. Como dizia Vinícius de Moraes, "são demais os perigos desta vida" para se andar despreocupado.

Então, quando encontrar um amigo (a) e ele disser,"me separei", lembre do que uma vida descompromissada faz.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Caráter Brasileiro


Ainda o livro Brasil País do Futuro; ele faz a gente refletir. Sweig insiste que nosso país passou por situações que o vem preparando para uma importante missão. Quando fala de Maurício de Nassau, por exemplo, diz: "Faz boa figura na História do Brasil. Como humanista trouxe a idéia de tolerância, permite a todas as religiões livre ação, possibilita a todas as artes fecundo desenvolvimento, e mesmo os velhos colonos não podem queixar-se de violência". Ainda assim os holandeses foram expulsos, mas "de um modo geral, o episódio holandês na História do Brasil representa uma sorte para este. Durou bastante para, por uma administração exemplar, fazer ver o que neste país, com organização boa e humanista, pode ser realizado". Deste modo, em nossa memória cultural ficou a marca de que é possível um governo digno e aprendemos ter paciência enquanto o aguardamos. Esta tolerância vai ser importante.

Porém, outra lição ficou gravada daquele tempo: "Do norte ao sul, a colônia sente-se agora um país unido, que está unanimemente decidido a com violência afastar do seu organismo toda intervenção violenta em sua vida nacional: tudo o que é estrangeiro terá que, hora em diante, amalgamar-se com o que é brasileiro, se aqui quiser manter-se. Na aparência, com essa guerra, o Brasil foi readquirido para Portugal, mas, na realidade, o foi já para si próprio. Nessa guerra entre portugueses e holandeses pela primeira vez aparece esse novo elemento ainda desconhecido em suas qualidades: o brasileiro".

Mais adiante, em São Paulo,"começa a formar-se um tipo curioso, o paulista. Constituído de portugueses ou de filhos de portugueses, que têm, no sangue, dum lado, o gosto da vida nômade dos índios, e, doutro lado, o gosto das aventuras dos antepassados europeus, essa nova geração não gosta de lavrar a terra que possui. Há muito que para eles esse trabalho grosseiro é feito por escravos, e a maneira lenta de adquirir riquezas não condiz com seu sangue irrequieto. Eles querem enriquecer à maneira de conquistadores, enriquecer de uma só vez, ainda que seja com risco da própria vida. Por isso, os habitantes de São Paulo, várias vezes no ano, se reúnem em grandes grupos, para, como bandeirantes, a cavalo, com um bandeira à frente e com um troço de servos e escravos, como outrora os salteadores, se embrenharem pelo interior, não, porém, sem antes fazerem benzer solenemente sua bandeira, numa igreja. Às vezes se reúnem até dois mil homens para tais entradas, e então, por alguns meses, a cidade e os povoados ficam sem homens. Eles próprios não sabem dizer o que vão procurar; são impelidos, em parte, pela aventura, em parte, pela esperança de um achado inesperado, nessas terras imensas e ainda não exploradas. Desde os dias em que os tesouros do Peru e as minas de Potosi foram descobertas, não cessam os boatos acerca dum lendário Eldorado. Por que não estaria ele no Brasil? Por isso os paulistas vadeiam os rios, sobem e descem morros, seguindo por caminhos escabrosos sempre novos, na direção em que o vento impele a bandeira. Por mera cobiça de lucros, esses bandos
destroem a obra de colonização dos jesuítas, penosamente realizada durante anos e anos;
despovoam-lhes as colônias, levam o terror a regiões longínquas em que reina paz, escravizam e
roubam seres humanos não só indefesos, mas também já civilizados e conquistados para o
cristianismo. Mas os paulistas, graças à rápida adesão de muitos mestiços, já são tão fortes que
preceitos e leis não podem intimidá-los". Os paulistas foram, então, os responsáveis pela larguesa do Brasil e foram, sempre a locomotiva de nosso desenvolvimento.

Outra lição que o povo brasileiro aprendeu foi-lhe dada por pelo primeiro imperador: "Só resignação oportuna do imperador, que não goza da estima do povo, pode ainda salvar o trono contra o assalto republicano, e por isso D. Pedro I, em 1831, abdica em favor de seu filho com o exato reconhecimento da situação: 'Meu filho tem sobre mim a vantagem de ser brasileiro'. Também nessa abdicação novamente a tradição brasileira é felizmente garantida: realizar revoltas políticas tanto quanto possível sem derramamento de sangue e de modo conciliador".

Aí estão as pilastras do caráter brasileiro.

domingo, 25 de outubro de 2009

Minha anima


Quem sou? Por que, como homem, sou tão racional mas em certos momentos fico supersticioso ou emotivo (nas mulheres se dá o oposto)?

O psicanalista Carl Jung atribui estas mudanças de comportamento à duas forças que são partes de nossa personalidade, a sombra - lembranças de outras vidas que estão em nosso inconsciente - e a anima (na mulher é animus). Sobre esta ele disse: "A anima pode conferir algumas idéias muito estranhas; ela pode, por exemplo, conferir aquela peculiar qualidade que faz com que um homem leve sua vida como um tipo de aventura ou missão, fazendo da tarefa o objetivo de sua vida inteira. Um indivíduo romântico vai aos estudos ocultos como se fosse uma missão, organizada como as aventuras de cavaleiros buscadores, e isso é trabalho da anima. A anima não se ocupa somente com nonsense, ela também é a femme inspiratrice: ela dá a um homem idéias muito grandiosas e impulsos generosos, ela pode fazer da vida de um homem algo grande e nobre, não meramente um pacote de disposições. É verdade que quando a anima está por trás de um homem deixa a sensação de que o incentivo é de algum modo errado, ou como se realizasse a ação com apenas a metade de seu cérebro, como se não fosse o homem inteiro, sua personalidade completa".

Por que procurar tantas informações? No livro bíblico de Provérbios, diz: "Escutem! A sabedoria está gritando nas ruas e nas praças, 'Gente Louca! Eu chamei e convidei, mas vocês não me ouviram nem me deram atenção. Mas quem me ouvir terá segurança, viverá tranquilo e não terá motivo de ter medo de nada'". Quanto mais sabemos sobre nós mesmos, melhor, não acha?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Universo local


“No dia cinco do quarto mês do meu trigésimo aniversário, eu, o sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, vivia na Babilônia, na beira do rio Quedar, junto com os judeus que haviam sido levados para lá como prisioneiros. Fazia cinco anos que o rei Joaquim estava preso e neste dia o céu se abriu e eu tive uma visão de Deus”. Assim começa o livro bíblico de Ezequiel.
“Eu sou João, irmão de vocês e unido com Jesus tomo parte no sofrimento, no Reino e na paciência. Eu estava preso na ilha de Patmos, então, em um domingo, vi uma porta aberta no céu... e um trono com alguém sentado nele. O seu rosto brilhava como as pedras de jaspe e sardônia e em volta do trono havia um arco íris que brilhava como esmeralda. Ao redor do trono havia vinte e quatro tronos com líderes sentados neles vestidos de branco e com coroas na cabeça. Então vi um cordeiro de pé no meio do trono rodeado pelos quatro seres vivos e pelos líderes”. Assim está escrito no livro de Apocalipse.
Milhões crêem nestes relatos, outros não.
Em Agosto estive com um advogado em Barra Mansa, Sr. Adair, que me mostrou manuscritos que afirmou serem ditados por seres que vivem em outros planetas.
Na página http://www.urantia.org/portuguese/o_livro/02por032.htm tem um documento do tipo que vi com o advogado.
“Um universo local é a obra pessoal de um Filho Criador do Paraíso, da ordem dos Michaéis. Consta de cem constelações, das quais cada uma abrange cem sistemas de mundos habitados. Cada sistema conterá, afinal, aproximadamente mil esferas habitadas. O universo local tem como soberano o Deus-homem de Nebadon, Jesus de Nazaré. Os Filhos de Deus podem escolher os domínios das suas atividades de criador, mas essas criações materiais foram originalmente projetadas e planejadas pelos Arquitetos do Universo-Mestre do Paraíso”.
Pensei estas coisas ao ler a página http://www.astronomy.com/asy/default.aspx?c=a&id=8733
“A Organização Européia para Pesquisa Astronômica no Hemisfério Sul (ESO) divulgou nesta segunda-feira na Conferência sobre Exoplanetas realizada na cidade do Porto, em Portugal, a descoberta de 32 novos exoplanetas, ou planetas fora do Sistema Solar. A descoberta foi feita pelo Harps, espectrógrafo do telescópio da ESO. O resultado faz com que o Harps, um telescópio de 3,6 metros, se estabeleça como o maior 'caçador' de exoplanetas do mundo. Nos últimos cinco anos o Harps detectou 75 dos cerca de 400 exoplanetas conhecidos”.
E vendo esta representação de um planeta longe, orbitando três estrelas, senti que não sei nada, mas não igual àqueles que dizem “só creio em Deus e me basta”, não, a mim não basta. Sei que em algum tempo vou saber onde é meu lugar neste plano imenso de Deus.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Eterno Retorno


Em uma das aulas de "atividade artística", na minha infância, aprendi a "olhar" um objeto apreendendo dele o máximo de informação e a perceber que olhando-o de outro ângulo via-se novos detalhes. Foi este olhar detalhado sobre temas comuns da vida que pode fazer o alemão Martin Heidegger perceber no livro Assim Falava Zaratrusta, de Nietzsche, entre muitos assuntos, que ele fala sobre vida, sofrimento e círculo (ou volta sobre si mesmo). E comenta o que aprendeu ali.
Nietzsche "viu" a vida, desde sua forma mais elementar, como "vontade de poder". Esta vontade de existir e de existir "podendo", isto é, avançando e agregando valores a si mesmo, foi o que determinou a multiplicidade de formas de vida em nosso planeta.
No sofrimento dos seres ele "viu" o choque com o tempo, não o que o relógio marca e que nos apressa, mas aquela entidade com passado, hoje e futuro que está sempre a nos dizer: não adiante você ter "vontade de poder" continuar existindo e se elevando pois vou acabar contigo impreterivelmente.
E agora, o círculo, a "volta sobre si mesmo". Mas antes, vamos dar uma apreciada na vingança. Nietzsche "via" vingança como reação a um rebaixamento, uma atitude contra a sensação de ser aviltado. Então vingança se torna uma caça a quem nos diminui. Ora, deste ponto de vista vingança é um deixar de avançar, é um retroceder, é ir contra a "vontade de poder" que é o próprio ente humano. Quem deseja cuidar de sua evolução espiritual não deve reagir a qualquer ação de afronta como se tivesse sido rebaixado, assim não perderá tempo precioso de sua vida, de seu avanço, voltando e indo a caça para vingar-se. Porém, como evitar o desejo de vingança contra o tempo que nos faz sofrer ameaçando, durante cada minuto de nossa vida, tirar-nos a chance de continuar melhorando? Que sugestão nos dão os filósofos para não vivermos em sofrimento, com ansiedade ou deprimidos, diante da ameaça de morte?
Para Nietzsche a solução está no círculo que é mais como a espiral de Carl Jung. Nietzsche diz que teve uma visão em que uma águia dava voltas no céu, ascendendo, com uma cobra enrolada em seu colo, tal qual uma espiral. Esta é, para o filósofo a solução, o meio que temos de continuar vivendo com "vontade de poder" crescer sem que o sofrimento pelo medo de morrer nos rebaixe e nos faça perder tempo precioso procurando uma vingança.
Este é o meio, no pensar de Nietzsche, nos torna um "superhomem", a confiança "no eterno retorno", na volta sobre si mesmo, na ascensão que o tempo não consegue acabar já que somos eternos como ele.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desenvolvimento Sustentável


Uma palavra pode significar coisas diferentes para cada pessoa. Nosso historiador Gilberto Freyre dizia: “já que todas se mostram traduzidas e interpretadas por um ser cultural que é o homem cuja visão das coisas jamais será puramente mecânica, mas duplamente criadora”.
É o caso da expressão, “desenvolvimento sustentável”. Juro que sempre a interpretei como “progresso sem interrupção”, mas o economista Hélio de Almeida Brum vê mais longe: “Significa em última análise que os que possuem pouco devem ascender patamares mais elevados de qualidade de vida e os que possuem muito devem controlar a voracidade do seu consumo”. Quer dizer, uma mudança total na força do ditado que diz: “Quem tem quer ter cada vez mais”, ou nas palavras de Jesus: “A quem mais tiver, mais lhe será dado”. Ele disse isso como crítica ou como promessa? Ele acrescenta: “O desenvolvimento será sustentável se o desperdício for dominado e a pobreza for superada”. Diz mais: “O sistema econômico internacional necessita de alterações profundas para que o ponto de equilíbrio seja atingido, quando preservar os ecossistemas que o sustentam e a permitir relações econômicas mais eqüitativas”. È o tema do velho conto infantil Galinha dos Ovos de Ouro, ter todos os ovos é matar a galinha, o certo é colher um ovo cada dia.
Brum enumera o que cada um precisa fazer para o planeta ter um desenvolvimento sustentável: "1. racionalização do uso da energia, 2. atendimento das necessidades básicas da população, 3. estabilização dos níveis demográficos, conservação da base de recursos e 5. critérios ambientais nas decisões econômicas". Difícil, não é? Igual ouvi de uma motorista quando lhe entreguei panfleto no dia Mundial sem Carro: “Quem é que vai deixar o carro na garagem?”.

Tenho inventado todo o jeito para deixar o carro na garagem. Em casa todo mundo separa vidro, plástico, papel e lata e quando junto boa porção levo para a APAE. Como diz o bom malandro: “Eu sou assim, meu irmão não sei”.

sábado, 17 de outubro de 2009

Criando com o inconsciente


Quando se fala dos anos de trevas que cobriram a Europa até quase o ano mil surgi uma pergunta: o que travou o conhecimento já que em todos os tempos o homem foi um grande buscador de respostas? Carl Jung, em uma conferência levanta a seguinte explicação:
“Os homens antigos não possuíam o pensamento lógico, simplesmente porque não podiam produzir o mesmo tipo de raciocínio abstrato que podemos produzir. Deve ter havido um longo período de tempo antes que nossas mentes fossem treinadas para produzir uma condição abstrata de mente sobre e contra as tentações dos sentidos e emoções. Em assuntos técnicos os antigos nunca poderiam sustentar um pensamento abstrato por qualquer período de tempo, eles sempre eram interrompidos pelo instinto de travessura. Nós vemos isto em velhas máquinas construídas até 1820; em uma velha bomba, por exemplo, os eixos eram colocados sobre duas colunas dóricas; e certas máquinas eram construídas no estilo rococó - perfeitamente ridículo. Isto é travessura; e quanto mais travessuras se faziam, é claro, menor era a chance de que a máquina fosse eficiente. Eles pararam na curiosidade que agradava aos seus sentidos, de modo que nunca chegaram a qualquer espécie de seriedade no pensamento”.
Aqui ele falava do pensamento racional, mas o que dizer do poderoso inconsciente?
“O inconsciente é aquilo que não sabemos, mas está guardando dentro da gente. Vocês podem dizer que perceberiam se estivessem muito aborrecidos com alguma coisa, mas há situações nas quais vocês não conseguem percebê-lo, preferem pensar que estão doentes. Há situações em que não temos condições de admitir a verdade, ela pode ser demasiadamente contra nossos interesses; nós não podemos admitir a verdadeira natureza de nossas emoções, ela nos parece chocante”.
Ora, se usando o inconsciente teríamos capacidade de analisar nossas emoções e até nos curar, porque não desenvolvemos o uso desta capacidade que nos tornaria mais capazes? Ele diz:
“Nossa consciência é voltada para aquilo a que chamamos mundo visível. De modo a mover-se no mundo nós precisamos de certa atitude ou persona, a máscara que pomos frente ao mundo. Pessoas com uma persona muito forte têm faces muito parecidas com máscaras e para os outros parecemos bem misteriosos. O que vemos do mundo está distante da realidade, é meramente a superfície; nós não olhamos para dentro da substância do mundo, para dentro daquilo que Kant chamou de "a coisa em si", o inconsciente das coisas, e como tais são desconhecidas para nós. Portanto, para entendermos plenamente as coisas nós precisamos da outra metade do mundo, o mundo da sombra, o lado de dentro das coisas. Agora, se eu tenho uma pele de adaptação para o mundo consciente, eu devo ter uma para o mundo inconsciente também. A anima é a adaptação do homem às coisas desconhecidas ou parcialmente conhecidas. Foi muito tardiamente que eu cheguei à conclusão de que a anima é a contraparte da persona, e sempre aparece como uma mulher de certa qualidade porque ela está em conexão com a sombra específica do homem. Não há nada em nossa civilização que não tenha estado primeiro em nossa imaginação, em nossa fantasia; mesmo casas e cadeiras existiram, primeiro, na imaginação do arquiteto ou projetista. A Guerra Mundial só aconteceu quando muitas mentes eram de opinião de que a guerra iria acontecer e seria declarada na Sérvia, opiniões baseadas em uma percepção intuitiva. Como a crença comum de que haverá um Armagedon que iniciará no Oriente Próximo. Esta imaginação pode facilitar o começo de um conflito de grandes proporções. As fantasias são extremamente perigosas. Elas são parte de um inconsciente coletivo que consegue produzir grandes mudanças”. Mesmo quando usamos grande parte de nosso raciocínio do consciente não fazemos uso da poderosa força “que move montanhas” e que está no grande arquivo inconslciente.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Abundância e abandono


Leia só este pedacinho, está no conto A Hora e Vez de Augusto Madraga, e é uma coisa que a gente passa, sente e vivencia quando anda de bicicleta pelos caminhos da roça, e é um trecho do último conto do livro Sagarana, de João Guimarães Rosa:
“E todos sentiram muito sua partida. Mas ele estava madurinho de não ficar mais e, quando ficou no sozinho, espiou só para frente e logo começou a cantar. Tudo era mesmo bonito, como são todas as coisas nos caminhos do sertão. Quando tinha sede bebia, aparada nas mãos, a água das frias cascatas dos morros que caem com tom de abundância e abandono”.
Às vezes, quando bebemos de uma fonte assim, brincamos com os colegas: Ei, você deixou a bica aberta! Mas pode, longe da cidade pode. Ali a água escorre sem fim e vendo aquele esparrame fica-se grato e feliz. O respeito cresce, o cuidado com o equilíbrio da natureza que nos recebe de braços abertos, como mãe que é, torna-se parte do comportamento da gente.
Mas vendo aquele farto jorrar de água me faltava as palavras certas para descrever o que sinto, até que li e Guimarães Rosa coloco-as em meu coração: “caem com tom de abundância e abandono”. Esta é a magia de quem na imensidão das palavras consegue escolher justinho aquelas que descrevem nossas emoções.
Obrigado Pai, pelas águas cristalinas e pelos escritores.

domingo, 11 de outubro de 2009

A maravilha da espiral


Fico fascinado com as volutas de uma trepadeira. Ela dá uma volta em torno do galho saindo no mesmo lugar, mas sempre um pouco adiante e um tantinho acima. Assim, lendo o registro de uma conferência feita por Carl Jung fiquei impressionado com sua interpretação da espiral.
"Uma das leis fundamentais do desenvolvimento natural é a de que ele se move em espiral. O homem que descobriu a matemática da espiral vivia em minha cidade, foi Jacob Bernoulli (1654-1705). Em seu túmulo está gravado: 'Sempre mudando e continuando igual, mesmo assim eu ascendo'. Psicologicamente nos desenvolvemos em uma espiral, sempre passamos sobre o mesmo ponto em que estivemos antes, mas nunca é exatamente o mesmo, está sempre acima. Um paciente dirá se queixando: 'Eu estou justamente no ponto em que estava há três anos atrás, doutor!', mas eu digo: 'Ao menos você percorreu três anos'".
Às vezes nos dá vontade de desistir, de deixar a depressão nos arrastar para o fundo, especialmente quando perdemos algo duramente conquistado, mas então nos damos conta de que não perdemos tudo e de que não voltamos ao mesmíssimo ponto. Não, nós estamos em uma espiral e saímos mais adiante em nosso caminho, em nossa ascensão.
Agora, veja o que mais ele diz: "O caminho que a espiral faz é para dentro e para fora sugerindo a função do masculino e do feminino no sexo. Penso nisto como o ritmo da vida, como fases ativas e passivas, alturas e profundidades, o yin e yang. No mito de Gilgamesh a idéia do Homem Perfeito, do Homem Completo, é a de que dois terços do homem são divinos e um terço é humano. Ele é o ser do desgosto e do deleite, aquele que faz os dois movimentos, alto e acima e profundo e abaixo. Gilgamesh é mostrado na mais grandiosa satisfação e no mais profundo desespero, subindo
às maiores alturas e descendo às mais baixas profundidades. A idéia da vida completa é a de um enorme vaivém do alto para baixo, da frente para trás, a diástole e a sístole, o ritmo da vida".
Quando ele proferiu estas palavras, em 1929, os bioquímicos estavam longe de entender o maravilhoso segredo da evolução da vida que está guardado em uma substância química, um encadeamento de moléculas, o DNA e mais distantes ainda de saber que ele está enrolado em uma espiral, se não Jung não perderia a oportunidade de falar: Toda a vida se desenrola numa infinita espiral, como o DNA.
Particularmente só não gostei de desenhar a espiral quando era estudante, com um compasso e um esquadro, em um trabalho de matemática. Foi bem difícil para mim, mas a Natureza a faz facilmente.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Falando dos Sonhos


Deixe-me te passar algumas considerações sobre sonhos feita por Jung.
“O sonho é uma coisa vivente, de modo algum uma coisa morta que ressoa como papel seco. É uma situação viva, como um animal com tentáculos, ou com muitos cordões umbilicais. Nós não percebemos que, enquanto estamos falando dele, ele está produzindo. Eis porquê os primitivos falam de seus sonhos, e o porquê de eu falar de sonhos. Nós somos movidos pelos sonhos, eles nos expressam e nós os expressamos, e há coincidências ligadas com eles. Nós não os perceberíamos se eles não fossem de uma peculiar regularidade, não como aqueles experimentos de laboratório, mas uma espécie de regularidade irracional. O Oriente baseia muito de sua ciência nesta irregularidade e considera as coincidências como bases confiáveis para o mundo, preferencialmente à causalidade. Quando o inconsciente usa uma figura é porque tem em vista ela e não eu. Não há razão para acreditar que o inconsciente não diz o que quer dizer; penso assim em aguda contradição com Freud. Eu digo que o inconsciente diz aquilo que quer. A natureza nunca é diplomática. Se a natureza produz uma árvore, é uma árvore e não um poste para um cachorro urinar. E assim o inconsciente não faz disfarces, isso é uma dedução nossa.
Mas quando sonhamos com uma pessoa distante ela é mais provavelmente uma mera imagem que tem a haver só com você mesmo. Alguém com o qual você está imediatamente conectado pode causar grande distúrbio em sua atmosfera mental e, portanto, você está perfeitamente certo em presumir que a pessoa remota é somente uma imagem no sonho referindo-se inteiramente a você mesmo. O termo para isto é participation mystique do filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939) cuja definição é: "conexão psicológica na qual o sujeito não pode distinguir claramente entre ele e o objeto, mas está atado a ele por uma relação direta que atinge uma identidade parcial". Se você sempre interpretasse o objeto como subjetivo, isso tornaria sua vida relativa e ilusória; você estaria completamente isolado porque teria destruído as pontes que o ligam à realidade. Eu devo insistir no valor objetivo de tais imagens objetivas.
Muitas pessoas pensam que são muito boas e que a substância negra é quase não-existente nelas e, no entanto, elas possuem vasta quantidade dela, sendo humanas! Se elas sonham com uma ovelha negra, a ovelha negra não é importante, mas chamá-las de ovelhas negras é importante em excesso e é muito melhor que elas tomem isto para si mesmas. Assim, se você sonhar que seu melhor amigo é uma ovelha negra, isso significa que ou você é uma ovelha negra, ou o amigo é, ou há sujeira entre vocês.
A descrição da localidade também é muito importante; o lugar onde o sonho se passa, seja hotel, estação, rua, bosque, debaixo d'água, etc., faz uma tremenda diferença na interpretação. A casa repete-se freqüentemente como um símbolo nos sonhos, e geralmente significa a atitude habitual ou herdada, o modo habitual de vida, ou algo adquirido, como uma casa, ou talvez o modo pelo qual vivemos”.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Falando para as paredes


Você conhece aquele tipo de pessoa que fala e fala e quando chega tua vez de dizer alguma coisa ele não está nem ai para o que dizes. É como aquele jogador de futebol que quando pega a bola esquece a equipe e tenta driblar o time adversário sozinho e fazer o gol. Em uma conferência em 1928, Carl Jung explicou a maneira de sentir desta pessoa: "Em um jogo onde a bola é pega não por outras pessoas mas por si mesmo, pode haver um elemento de auto-isolamento ou auto-erotismo, um jogo auto-erótico, jogado solitariamente, não em conjunto. Algumas pessoas 'falam para as paredes' e não para seus companheiros: tais faladores são mais ou menos auto-eróticos, eles falam para si mesmos mesmo quando estão em comunidade".
Mas além de egoista esta pessoa também sofre de um problema, ela se acha inferior, não joga ou escuta os outros porque não se acha digno delas. "Assumindo que é o errado e que os outros fazem parte de famílias felizes e normais e pensando que o mundo é todo constituido de amáveis famílias em amáveis casinhas, com chás das cinco e pequenos e doces bebês eles se prejudicam. Eu, como analista sei que há as mais terríveis coisas debaixo de tudo, e por isto tenho que me preocupar com essas pessoas que acham os outros superiores a ela".
Não se tem como saber porque mesmo os bons amigos não têm o hábito de contar um ao outro seus sonhos, mas o problema desta pessoa de quem gosto vai aparecer nele. "Parte do sonho prepara ele para o fato de que está entrando em um problema coletivo e a solução será algo igualmente impessoal: algo como uma comunhão, uma iniciação, um mistério desempenhado na igreja, um tipo de jogo ritual".
Não se abrindo com os amigos ele está tentando, sem se dar conta, a sublimação de suas dificuldades. Agora veja onde chega o mestre Jung ao falar das reais razões que levam a pessoa a se isolar. "Mas uma sublimação nunca responde ao problema real, urgente. Ele não age como uma criança, se não vinha e admitia que está aborrecido com sua estimada esposa em casa. Para ser uma criança significa que ele precisa reconhecer sua sombra, o homem inferior que existe nele e não vive em condições racionais, uma espécie de ser primitivo que é mais consciente das necessidades da natureza e que o forçará a admitir seu aborrecimento. Então, ganhando conhecimento de sua sombra, ele poderia admitir seu ser natural e trocar um aperto de mãos com ele, e não mais negar a verdade sobre sua própria psicologia. Desde que ele não pode escapar à sua sombra, tornar-se-a consciente do lado menos elegante de si mesmo. Então a sombra será desconectada de sua anima, porque à medida em que ele se torna consciente de sua sombra, ela é libertada de seu inconsciente. E quando a sombra e a anima tiverem um relacionamento próprio, há uma chance de que sua relação com sua esposa se torne melhor, que ele possa ter uma relação individual com ela e ser mais aberto com os amigos. Pois ele só pode estabelecer um relacionamento real quando estiver consciente de sua sombra".
Veja o quê um problema com a patroa (ou com o marido) causa a pessoa! De novo o Senhor Jesus já tinha avisado: "Se vocês não se tornarem como uma criança não herdarão o reino dos céus", e digo mais, nem se relacionará direito com os amigos. Não vai ouvir bem e vai ficar 'falando para as paredes'.
"Perai, não acaba não, o que é este anima que o cara falou aí à trás?"
Isto eu explico depois.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cuidado com a Natureza




Muito tempo atrás os humanos se preocupavam mais com a natureza. Transcrevo aqui o diálogo entre dois caçadores - do livro Filhos da Terra, em espanhol - há 50.000 anos:
Jondalar sacó de la funda su cuchillo con mango de hueso y practicó un profundo corte en el cuello del animal. Sacó las lanzas y vio cómo la sangre se acumulaba en un charco alrededor de la cabeza de la yegua.
-Cuando vuelvas a la Gran Madre Tierra - dijo al caballo muerto - dale las gracias. - metió la mano en su bolsa y acarició la figurilla de piedra que representaba a la Madre, en un gesto inconsciente.
«Zelandoni tiene razón. - pensó - Si los hijos de la Tierra llegan a olvidar quién les da el sustento, podemos despertar algún día para descubrir que no tenemos hogar.»
Entonces aferró el cuchillo y se preparó a coger su parte de las provisiones de Doni.
-He visto una hiena al regresar. - dijo Thonolan cuando estuvo de vuelta - Parece que se va a alimentar alguien más, no sólo nosotros.
-A la Madre no le gusta el despilfarro - dijo Jondalar, bañado en sangre hasta los codos - Todo retorna a Ella de un modo u otro. Anda, ayúdame.
Muitos séculos depois os arqueólogos tem encontrado muitas estatuetas da Mãe Terra (Vênus de Willendorf). A imagem de uma mulher na qual só está bem esculpida a barriga prenhe de vida; os membros e a cabeça são apenas esboçados. Homens e mulheres a temiam pois ao ofendê-la - tirando uma vida na caça e desperdiçando ou destruindo a mata - ela lhes castigava tornando as fêmea, humanas ou animais, inférteis e os homens impotentes. Quer castigo maior? Creio que seríamos mais cuidadosos com as obras da mãe natureza se ainda tivéssemos este temor ainda hoje! Pensando bem, não será por nossa falta de cuidado com o ecossistema que os homens estão tão "broxados"?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Resgate da culpa


Já ouviu a história de Antígona, a filha de Édipo, o que matou o pai e casou com a própria mãe? Percebe em seu coração um mal estar só em ler sobre estes crimes? Faz lembrar as palavras escritas por Paulo, o apóstolo, aos cristãos: "Que tais crimes nem sejam mencionados entre vós", tal a gastura que nos causa. Mas nos jornais, de momento a momento, ouvimos de casos bárbaros onde um ser humano desafia as leis e a ira de nosso Senhor e engendra para si mesmo, para seus parentes e para sociedade uma culpa que causará muito dano até ser resgata por outra ação contrária, heróica e exemplar. Foi o que fez Antígona.
O irmão mais moço se bandeou para outro povo e veio com o exército dele lutar contra sua cidade, Troade, a das sete portas. Morreu na batalha, e o rei Creonte, seu tio, emitiu um decreto proibindo seu enterro: "Ele deve ficar insepulto para servir de pasto para os cães e os urubus". Antígona não aceitou este decreto e foi ao campo de batalha untar o corpo do irmão com os óleos próprios de um funeral e cobriu-o com terra da melhor forma que pode. Guardas prenderam-na em flagrante delito e levaram-na ao rei Creonte. Ela foi julgada daquela forma parcial e rápida, comum sob governos ditatoriais, e foi condenada a morte.
Esta história é uma peça de teatro escrita por Sófocles, teatrólogo grego, quinhentos anos antes de Cristo. É uma tragédia e morrem quase todos os personagens. Impressionou-me uma fala do coro - nas tragédias gregas, além dos atores, o palco era dividido por um grupo que em uníssono comentava o desenrolar dos acontecimentos - que diz: "Triste é para uma família quando os deuses decidem castigá-la". É o que se vê toda hora no noticiário, uma bala perdida tirando a vida de alguém ou um incauto perdendo os bens ou a vida para um marginal que lhe cruza o caminho. Mais do que nunca é uma palavra poderosa, um mantra, as últimas palavras do Pai Nosso e que devemos repetir sempre: "Livra-nos de todo mal", amém.

domingo, 13 de setembro de 2009

É Gooooooll!


Um mega show de um grande artista pode encher o Maracanã, mas como o futebol enche vários estádios, no mesmo dia, pelo Brasil a fora? Que poderosa força leva multidões aos campos de bola?
Estou lendo o que o psicanalista Jung ensinou em um seminário, em 1928. Ele não falava de futebol, mas acabou explicando um poderoso arquétipo que está no inconsciente de todo ser humano. Leia o que ele disse:."Há um manuscrito do século doze no qual um teólogo da Faculdade de Paris, escreve: 'Há algumas igrejas onde até os bispos e arcebispos jogam bola com seus subordinados, embora pareça mais louvável não fazer uma tal coisa'. É interessante que estes jogos foram jogados 'para o consolo e recreação da alma'. E em outros jogos nas igrejas a bola depois de muito chutada era cortada em pedaços representando o ano passado. Outros textos falam de um velho costume da Páscoa no qual a "bola do ano passado", devia ser cortada em pedaços. É como se o ano que passou tivesse que ser desmembrado, de um modo que todos pudessem participar. Comparem também com a comunhão cristã, na qual deus é desmembrado e comido. Isto tudo está ligado com antiquíssimas cerimônias sacrificiais da primavera. Sendo uma cerimônia realizada na páscoa, que coencide com o fim do inverno nos países acima do equador, é bastante provável que a bola simbolize o Sol". Assim, um costume tão antigo quanto a existência dos homens,o jogo de bola fazia parte das tentativas de garantir a volta da primavera, as colheitas e a sobrevivência do grupo, e sem lembrar disto o mesmo anseio move multidões em direção aos estádios até hoje.
Ele disse mais: "Quando estamos prestando atenção a nossas transações conscientes, esquecemos que nosso inconsciente está reagindo ao mesmo tempo. Uma comunidade é um organismo, uma simbiose, e nós formamos uma espécie de organismo enquanto pensamos juntos; e se qualquer coisa perturbadora acontece dentro deste organismo, algumas mentes percebem o distúrbio e dizem 'olha lá'". Nos jogos de futebol a multidão sente como um homem só celebrando a vida sem fim.
Então Jung fala de outro jogo que tem similaridades com o futebol:
"A tourada já não promove um sentimento de comunidade. Nós superamos esse simbolismo, assim como superamos a idéia de redenção comendo a carne e bebendo sangue da vítima sacrificada; poucas pessoas hoje em dia sentem a emoção medieval quando estão comendo o corpo e bebendo o sangue na comunhão. Então a tourada como símbolo místico é antiquada, assim como muito do nosso simbolismo cristão. O touro é força natural, o animal não-controlado, que não é necessariamente destrutivo. Nós temos o preconceito cristão contra o animal no homem, mas um animal não é necessariamente mau, assim como não é bom. Nós somos maus, mas o homem não é necessariamente mau, porque ele também é bom. Se nós matamos o animal em nós, também matamos as coisas realmente boas em nós, não as coisas aparentemente boas. Esta é nossa única esperança - voltar a uma condição na qual sejamos corretos com a natureza. E o toureiro é o herói, porque ele é a única luz que brilha naquela escura massa de paixão e raiva, aquela falta de controle e disciplina. Ele personifica a perfeita disciplina. É preciso raça e ousadia, para viver no seio do barbarismo; se fraquejar em qualquer lugar, está acabado". Este é outro atrativo do futebol, o domínio sobre nosso lado animal e violento. No meio da disputa dura pelo domínio da bola (da vida) o melhor jogador é o que mantem suas emoções sob controle. A multidão assiste e cada um transfere para si o que vê em campo: a bola (a vida) rolando e o jogador(o herói), ele mesmo, conduzindo-a cheio de garra e emoções, mas controlando o lado irracional, e com talento faz o gol. Isto é o que todos que estão com os olhos pregados nele desejam, ser um vencedor.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O dom das palavras


A palavra foi o começo de nosso caminhar, o jeito de juntar informações e passá-las adiante, aos outros. Quem lida com as palavras, as enfileira seguidinhas formando idéias, é uma pessoa especial. Quem lê as palavras, compreende o pensamento contido nelas, também ajunta por formar novas noções sobre a vida dos homens. Mas quem inventa palavras é um rei, um mestre. Reli Sagarana, um livro de contos de João Guimarães Rosa e a cada página fiquei maravilhado com seu dom de inventar palavras. No conto O Burrinho Pedrêz ele descreve um curral atochado de bois e nos faz ver o reboliço de animais apertados: “Alta, sobre a cordilheira de cacundas sinuosas, oscilava a mastreação de chifres. E comprimiam-se os flancos dos mestiços de todas as meias-raças plebéias dos campos-gerais com as cores mais achadas e impossíveis: pretos, fuscos, retintos, gateados, baios, vermelhos, rosilhos, barrosos, alaranjados, castanhos tirando a rubros, pitangas com longes pretos, listados, versicolores, turinos, marchetados, tartarugas variegados, araçás, zebruras pardossujas em fundo verdacento, ágata acebolada, nós de madeira e granito impuro”.
Me diga onde ele arranjou estes nomes para as cores do gado bovino encurralado. Por isso, quando criticando alguém questionar uma palavra que você usou: esta palavra não existe!, responda petulante: Fiz ela agorinha mesmo, fresquinha. E pronto.

A reta infinita


Os filósofos são homens e mulheres que tomaram para si a tarefa de refletir sobre a razão de existirmos. Ao invés de ver filmes, que estão cada dia mais vazios, gasto este tempo lendo os filósofos e aprendendo com eles.
Lendo Emanuel Kant me deparei com um intrincado pensamento que prova nossa infinitude. No livro Crítica da Razão Prática ele diz: "Ora, a conformidade completa da vontade para com a lei moral é a santidade, uma perfeição de que nenhum ser racional do mundo sensível é capaz de alcançar em qualquer momento de sua existência".
Ele continua desenvolvendo o raciocínio: "Penso que a proposição de não poder alcançar a conformidade completa com a lei moral a não ser num progresso que vá ao infinito é da maior utilidade".
Por que? "Na ausência dessa proposição ou se despojaria a lei moral de sua santidade fazendo-a benevolente" - quer dizer, por que punir o malfeitor se somos todos malfeitores? - "ou então se exaltaria sua missão até fazer dela um destino inacessível".
Daí, conclui: "A esperança da perfeição do homem viria de sua resolução e a partir do progresso já realizado desde um estado pior para um estado moralmente melhor, podendo esperar uma continuação ininterrupta deste progresso qualquer que possa ser a duração de sua existência, e mesmo para além desta vida".
Com isto concorda o padre Fábio de Melo no livro Quem me Roubou de Mim onde conclui ser um grande crime um cônjuge - ou outras relações que mantenham duas pessoas convivendo, como pai e filho ou patrão e empregado - impedir o crescimento moral do outro já que a missão do ser humano é ascender a perfeição de um filho de Deus e poder dizer cheio de alegria: Eu venci o mundo.
Assim, vemos que aqueles que gastam seu tempo pensando o que os humanos são e qual tem sido o nosso progresso, chegam à conclusão de nossa eternidade. O pensamento real é o que Glória Perez desenvolveu em sua novela Caminho das Índias: os erros e boas ações não se esgotam em uma geração, mas repercutem nos filhos e netos. Uma reta não é um começo e um fim, mas apenas um pedaço de uma curva infinita.

sábado, 5 de setembro de 2009

Dura Lex


Quando o presidente Luis Inácio em recente discurso declarou enfaticamente que os procuradores da República deviam zelar pela biografia tanto deles mesmos quanto da dos acusados me acudiu o que Emanuel Kant falou sobre a lei no seu livro Crítica da Razão Prática: "A razão prática causa prejuizo ao amor próprio pelo fato de apenas conceder-lhe os limites justos que correspondem a lei moral, estando, ainda antes da mesma se manifestar, natural e viva dentro de nós mesmos. Ela abate completamente a presunção, pelo fato de que todas as reivindicações feitas por nossa autoestima e contrárias a ela são nulas e ilegítimas, porquanto uma resolução em acordo com esta lei é precisamente a condição de todo o valor da pessoa".
Um cidadão que ainda está sendo investigado e julgado realmente ainda merece algum respeito. Acontece que a Justiça brasileira ainda está amarrada por burocracias processuais demoradas e um um homem indigno afronta a sociedade espalhando um péssimo exemplo. Assim a exposição pública de provas contundentes feita pela imprensa faz a sociedade prejulgar o indivíduo como um fora da lei e considerá-lo como indigno de qualquer respeito e talvez mantenha as engrenagens da Justiça se movendo.

Como diz Kant, "a lei é a própria causa da nossa liberdade e é assim digna de respeito e tudo que a contraria, a saber, as inclinações em nós ela enfraquece na medida em que ela abate e humilha; ela é o objeto do maior respeito".
A liberdade e a vida segura de cada cidadão é garantida pela lei, então temos de abaixar nossas cabeças e restringir nossa vontade diante dela e só levantarmos a cabeça diante da lei quando exigirmos que ela garanta nossos direitos. Um corrupto não pode andar de cabeça erguida no meio da sociedade.
O filósofo diz algo muito sério sobre nossa relação com a lei: "Há algo de tão singular na estima ilimitada para com a lei moral cuja voz faz tremer até o mais audacioso malfeitor indicando que este sentimento está inseparavelmente ligado a uma representação da lei dentro de todo ser racional finito e seria inútil tentar descobrir uma ligação entre este respeito e alguma coisa em nós. Não é nem da ordem do prazer nem da ordem do sofrimento o que, no entanto, produz em nós o interesse pelo cumprimento da lei".

É algo inerente no ser humano, como o impulso de adorar a Deus, temer a lei.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Não há quietude na matéria


Quando olhamos para o céu noturno, cintilando de estrelas, a Lua prateando nosso mundo e o Sol lá do outro lado iluminando a Terra, tudo parece tão quieto, feito a muito tempo e agora em descanso. Mas quando olhos atentos examinaram os corpos celestes perceberam um movimento intenso e coisas novas surgindo a todo momento. Agora, com poderosos telescópios espaciais, como o Spitzer da NASA, os astrônomos presenciam cataclismos poderosos no Universo. Recentemente encontraram provas de uma colisão de alta velocidade entre dois planetas em torno de uma estrela jovem. Os astrônomos dizem que eram corpos rochosos, um era pelo menos tão grande como a nossa Lua e outro no mínimo tão grande como o Mercúrio. O embate jogou o menor dentro do outro, a alguns milhares de anos atrás - pelas normas cósmicas isto não foi há muito tempo. O impacto destruiu o corpo menor, vaporizando enormes quantidades de rocha e lançando plumas maciças de lava quente para o espaço. Detectores de infravermelhos do Spitzer foram capazes de reconhecer as assinaturas da rocha vaporizada, juntamente com pedaços de lava. "Esta colisão teve enorme e incrivelmente alta velocidade para rocha ter sido vaporizada e derretida," disse Carey M. Lisse do laboratório de Física Aplicada da universidade Johns Hopkins. "É um evento raro e de curta duração, crítico na formação de planetas e luas. Tivemos sorte de assistir esta colisão não muito depois que ela aconteceu."

Ele disse que este choque cósmico é semelhante ao que formou a nossa Lua a mais de 4 bilhões anos atrás, quando um corpo do tamanho de Marte abalroou a Terra. As origens do nosso sistema solar são ricas em histórias semelhantes de destruição. Impactos gigantes despiram Mercúrio de sua crosta exterior e jogou Vênus para trás. Essa violência é um aspecto rotineiro na edificação dos planetas. Planetas rochosas se formam e crescem em tamanho. Colisões arrumam o conjunto, mesclam seus núcleos e modificam suas superfícies. Embora tais eventos radicais tenham diminuído no nosso sistema solar, hoje, impactos ainda ocorrerem, tal como foi observado no ano passado quando um pequeno objeto do espaço atingiu o enorme Júpiter.

Lisse e sua equipe observaram este choque nos planetas que orbitam a estrela chamada HD 172555, que é cerca de 12 milhões de anos mais velha que o Sol. Os astrônomos utilizaram um espectrógrafo sobre o telescópio Spitzer para dividir o espectro de luz da estrela e procurar por impressões digitais dos produtos químicos. O que eles descobriram foi muito estranho. "Nunca tinha visto nada assim antes. O espectro foi muito raro". Após análise cuidadosa, investigadores identificaram grandes porções de sílica amorfa, que aparecem comumente no vidro derretido. Sílica encontra-se na Terra em rochas de Obsidiana. Obsidiana é vidro vulcânico preto, brilhante. Também foram detectadas grandes quantidades de monóxido de silício orbitando, provavelmente da rocha vaporizada. Sua velocidade de colisão deve ter sido enorme. Os dois estariam viajando a uma velocidade relativa ao outro de pelo menos 34,800 quilômetros por hora antes da colisão. O Spitzer já encontrou rescaldos de grandes impactos de asteróides, mas não encontrou provas para o mesmo tipo de violência – rocha derretida e vaporizada. Em vez disso, foram observadas grandes quantidades de poeira e cascalho, indicando que as colisões poderiam ter sido mais lentas.
Viu? Quando olhar para o céu de noite, lembre-se que a criação continua, aliás, nada termina, tudo é eterno.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os Devotados Alquimistas


A preponderância do espírito (razão) sobre a matéria se percebe quando, ao folhear a história, demoramos nosso olhar nas vidas de homens e mulheres incomuns, que viveram como se fossem incumbidos de uma missão, qual seja, ajudar no aprimoramento da raça humana. Debruçados horas e horas e anos seguidos, sobre seus livros de anotações e realizando intermináveis experimentos eles, os alquimistas, foram descobrindo nas terras e rochas de nosso planeta bens maravilhosos que mentes superiores idealizaram numa engenharia de longuíssimo tempo e que estavam a nossa disposição, aguardando apenas a chegada deles, dos alquimistas.
Os primeiros surgiram entre os árabes e começaram a descobrir as preciosidades escondidas no solo da Terra, os elementos. O ferro, o cobre, o cloro, o magnésio e outros e mais outros - hoje se conhece 102 elementos. Os alquimistas descobriram com o precioso tempo de suas vidas as propriedades de cada um deles e como utiliza-los para o bem humano. Zózimo foi um deles.
Alquimista grego da cidade de Panápoles divergiu dos estudos preferidos por seus compatriotas – a matemática e os esquemas abstratos – e enveredou pela química, influenciado por livros que falavam dos egípcios e seus esforços de preservar o corpo humano pela mumificação. Ele escreveu uma coleção de 28 livros reunindo os estudos gregos feitos à época de Alexandre sobre os rituais químicos dos egípcios que incluía o conceito sagrado chamado Khemia, escrito numa linguagem incompreensível para um não iniciado. Ele relata que o conceito de transformar qualquer metal em ouro ou prata, numa mistura de minerais com substâncias orgânicas, foi dado aos homens pelos anjos decaídos que contaram esse segredo a suas mulheres ou, conforme outra corrente, este conhecimento foi dado a homens escolhidos pelo deus Hermes (ou Tot para os egípcios) em rituais muito secretos; de onde a expressão “hermeticamente fechada”. Zózimo usava a destilação, a sublimação e a coagulação, mas entendia que os metais deviam ser trabalhados em consonância com os planetas que os guiavam, por ex.: a prata devia ser trabalhada com a Lua em determinada fase e mexer com o cobre requeria que Vênus estivesse em determinada quadratura. A Alquimia caldaica misturava as experimentações químicas com a astrologia. Reunindo tanto a química experimental como a magia, a alquimia atraiu cientistas e aproveitadores e foi proscrita por inúmeros governos da Idade Média. http://www.members.tripod.com/alkimia/origem_p3.htm

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sonhos, corpos estranhos


Estou lendo Interpretação dos Sonhos, transcrição de um seminário dirigido por Jung em 1923. Explicando o valor dos sonhos, ele disse: "Corpo e mente, ou alma, são o mesmo, a mesma vida, sujeitos às mesmas leis, e o que o corpo faz está acontecendo na mente. Os conteúdos de um inconsciente neurótico são corpos estranhos, não assimilados, artificialmente cindidos, e devem ser integrados de modo a se tornarem normais. Suponhamos que algo muito desagradável tenha me acontecido e eu não o admito, talvez uma mentira terrível. Eu tenho que admiti-la. A mentira está lá objetivamente, seja no consciente ou no inconsciente. Se eu não admitir isto, se eu não o assimilei, isto se torna um corpo estranho e formará um abscesso no inconsciente, e o mesmo processo de supuração do corpo começa, psicologicamente. Eu terei sonhos, ou, se introspectivo, uma fantasia vendo a mim mesmo como criminoso. O que farei com estes sonhos ou fantasias? Pode-se rejeitá-los, como o fariseu, e dizer 'graças aos céus, eu não sou assim'. Há um fariseu assim em cada um de nós que não quer ver o que ele é. Mas se eu reprimir minhas fantasias acerca disso, elas formarão um novo foco de infecção, assim como uma substância estranha pode causar um abscesso em meu corpo. Quando sou razoável tenho que admitir a mentira, engoli-la. Se eu admiti-la, assimilo aquele fato, adiciono-o à minha constituição mental e psicológica; eu normalizo minha constituição inconsciente assimilando fatos. O sonho é uma tentativa de nos fazer assimilar coisas ainda não digeridas. Assim sendo, somos informados por nossos sonhos sobre todas as coisas que vão mal em nossa psicologia, em nosso mundo subjetivo, as coisas que devíamos saber sobre nós mesmos. É uma tentativa de cura".
Assim quando sonhamos algo desagradável é importante pensar sobre a mensagem contida nele. Nesta vida corrida que levamos não buscamos momentos para refletir sobre o que fizemos durante o dia ou para analisarmos coisas que nos aconteceram, como um sonho, e o que podemos aprender com elas. Os antropólogos contam que os índios, pela manhã, quando fazem a primeira refeição, contam o que sonharam aquela noite e discutem o que significam, que avisos receberam, além do que o grupo familiar fica se conhecendo melhor e com o interesse que os laços de sangue proporciona podem se ajudar.
Quem faz trilha de bicicleta, em certos momentos pedalando sozinho, tem um tempo precioso para meditar e analisar seus sonhos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Confissões


Leia estas palavras de Jung em Interpretação dos Sonhos e perceba que idéia espetacular:
"A análise é análoga à confissão, e a confissão tem sido sempre coletiva e deve ser coletiva; não é feita para alguém em si, sozinho, mas para o bem da coletividade, por um propósito social. A consciência social de alguém está com problemas e força-o a confessar; através de pecado e segredo alguém é excluído, e quando confessa é incluído novamente. O que mais ocorre na vida com uma tribo primitiva é esse sentimento de estar na corrente da vida coletiva. Em circunstâncias primitivas pode-se discutir qualquer coisa, qualquer coisa pode ser dita a qualquer um. Quando um homem diz que sua esposa dormiu com outro homem, isto é nada - toda esposa tem feito isso. Ou se uma mulher diz que seu homem fugiu com uma garota de outra vila, isso é nada - todos sabem que todo homem tem feito isso. Estas pessoas não excluem umas às outras pelo segredo, elas conhecem-se umas às outras e assim conhecem a si mesmas, estão vivendo em uma corrente coletiva. Sente-se que nossas cidades são um mero conglomerado de grupos, cada homem tem seu próprio círculo, e não se aventura a revelar-se mesmo a este, ele procura esconder até de si mesmo. E é tudo uma questão de ilusão. Os assim chamados amigos íntimos não conhecem as coisas mais importantes uns a respeito dos outros. Um paciente homossexual disse-me quantos amigos ele tinha. 'Tenho cerca de cinco amigos íntimos'. 'Eu suponho que você é homossexual com seus amigos íntimos'. Ele ficou chocado com a idéia, ele esconde isso deles. Este esconder dos amigos destrói a sociedade".
Jung lembra que foi isto mesmo o que os apóstolos ensinaram: "confessem suas faltas, uns aos outros". Pode parecer impossível de se fazer, vai complicar tudo, mas não foi sempre o que aprendemos com nossa mãe: "a mentira tem pernas curtas"?
Mas o que Jung diz a seguir é uma condenação que vai parecer estranha:"Esta sociedade humana será novamente construída, depois do encerramento da era protestante, com sua idéia de que temos de viver sem pecado. A idéia da confissão sendo um dever coletivo é uma tentativa do inconsciente para criar a base de uma nova coletividade. Ela não existe agora".

sábado, 1 de agosto de 2009

Os políticos


Raça de homens maus! E são nossos filhos, sairam do seio da sociedade, que afinal sou eu e você. Os políticos são alguns de nós. Já nascem com este gene dominante, ou talento, ou culpa, sei lá. Mas são amorais. Não caia nessa de que tendo se desenvolvido em um meio - dos metalúrgicos ou dos médicos, por exemplo - será bom. Um político é sempre a banda podre de sua classe. Nem escolha aquele - porque é nossa obrigação escolhe-los, inventamos isso desde o princípio do mundo - que é religioso, que resa diante de nós, contrito, na praça ou na televisão. Não deixe este fato lhe escapar, ele é um político, um principe, uma potestade má. Lendo Emanuel Kant nos damos conta que só existe um força para controlar o sem vergonha, o aproveitador, aquele que nasceu com esta missão, ou pior, aquele que fez da vida de político o seu destino. Só o que pode manietar sua mão rapace - com cinco, quatro ou seis dedos - é a lei.

"Dever! Ó nome sublime e grande, tu que não encerras nada de agradável, nada que implique que alguém se deixe persuadir pela lisonja, mas que exige submissão, que pões uma lei que por si mesma encontra acesso ao espírito, e conquista, ainda mesmo contra nossa vontade, uma lei diante da qual se calam todas as inclinações, mesmo quando agem secretamente contra ela".

Então, vamos meter a lei em cima deles! Mas não espere que eles mesmos acionem a lei contra um dos seus. Aquilo ali, o antro deles, é uma panela cheia de tudo quanto é ruim. Nós, os cidadãos, quem os escolheu, mesmo que amemos a sua figura, afinal sairam de nosso meio, não fiquemos só assistindo seus desmandos pela televisão, acionemos a justiça contra eles, movamos uma ação popular, porque só tem este modo de parar seus malfeitos, a lei.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Evangelho de Maria Madalena (fragmento)


Acabei de ler um livro apócrifo, o evangelho segundo Maria Madalena. É pequeno porque só foi encontrado um fragmento do manuscrito.

O ser humano sempre foi muito inventivo e nos primeiros cem anos depois da ascensão de Jesus alguns de seus seguidores escreveram o que se dizia sobre o Mestre e qo ue mais lhe tocava o coração, misturando estes ditos com seus próprios pensamentos. Lembre que não era fácil escrever naquele tempo, poucos sabiam ler e escrever e o material precisava ser preparado pelo próprio escritor: o estilete, geralmente um bambu fino com ponta que era molhada em tinta, e este líquido, preparado por ele mesmo, precisava ser uma mistura que aderisse e não soltasse do pergaminho que podia ser um pedaço de pano ou de couro bem delgado; não dava para sair de casa e simplesmente comprar na papelaria. Escrever uma história sobre Jesus ou qualquer outro tema exigia um forte desejo do candidato a escritor. Depois de pronta ele mandava o escrito para outro cristão, em outra cidade, que compartilhava de suas idéias - isto exigia encontrar alguém que estivesse em viagem para aqueles lados. Se este outro fosse tocado pelo que continha naquela missiva fazia, repetindo todo aquele trabalho, uma cópia e mandava para outrem. Só chegaram até nós, dois mil anos depois, os documentos que tinham muitas cópias e ainda assim faltando muitos pedaços.

No interim a igreja cristã já organizada escolheu durante o segundo século depois de Cristo as cartas que melhor expressavam o sentimento da comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré que estavam espalhados, desde a Judéia, para todos os pontos cardeais. Foram escolhidos quatro evangelhos e todos os outros foram considerados apócrifos, o que no entender dos bispos, cristãos proeminentes de então (preocupados em manter coeso os ensinamentos do rabi que a inventividade e as diferenças de personalidade estavam fazendo periclitar) significava esconjurar. Foi ruim para a humanidade? No meu entender foi o que tinha de ser, mas uma idéia fica incubada como um vírus ou, dizendo de outro modo, fica escondida como um tesouro até o tempo certo de despertar ou aparecer. É o caso do evangelho apócrifo de Madalena. Agora, em um tempo no qual as mulheres ganham destaque ou recuperam sua condição de liderança que desfrutaram na época em que o matriarcado era moda, muitos estudiosos começam a acreditar que Maria Madalena foi uma líder naquele primeiro grupo cristão, é o que diz este pequeno manuscrito. Nele está escrito as palavras derradeiras do Messias : "Quando o Filho de Deus assim falou, saudou a todos dizendo: 'A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para que ninguém vos afaste do Caminho, dizendo: 'Por aqui' ou 'Por lá', pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não as instituais como legislador, senão sereis cerceados por elas'. Após dizer tudo isso, partiu.
Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam: 'Como vamos pregar aos gentios o Evangelho do Reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, vão poupar a nós?' Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: "Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens.' Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as Palavras do Salvador.
Pedro disse a Maria: 'Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos'. Maria Madalena respondeu dizendo: 'Esclarecerei a vós o que está oculto'. E ela começou a falar essas palavras: 'Eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: 'Mestre, apareceste-me hoje...'".

E ela conta umas palavras estranhas diferente das que conhecemos ditas pelo Filho do Homem. O pequeno documentos conta que o mesmo Pedro discorda do que ela fala e diz não acreditar que o Mestre tenha lhe dito isto, porém Mateus defende a mulher e termina assim: "Levi respondeu a Pedro: 'Pedro, sempre foste exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É, antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o Homem Perfeito e nos separarmos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou.'
Depois que Levi disse essas palavras, eles começaram a sair para anunciar e pregar".
Bem este pequeno documento apócrifo não muda nada, mas me parece ser mais um avanço do ser humano no longo caminho que viemos percorrendo para nos conhecermos e entendermos a melhor forma de nos relacionarmos, especialmente com os do outro sexo.
Foi o que Madalena disse num trecho de discurso: "O que me subjugava foi eliminado e o que me fazia voltar foi derrotado..., e meu desejo foi consumido e a ignorância morreu. No mundo fui libertada de outro mundo; de um tipo fui libertada para um tipo celestial e também dos grilhões do esquecimento, que são transitórios. Daqui em diante, alcançarei em silêncio o final do tempo propício, do reino eterno'. Depois de ter dito isso, Maria se calou".

domingo, 19 de julho de 2009

Conhecendo as cercanias de um buraco negro


Estou lendo Conceito de Iluminismo, de Theodor W. Adorno. Logo no início ele explica o que é o Iluminismo: “O programa do iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço”. Mais adiante ele diz que apesar do avanço que as pessoas sequiosas de respostas deram ao resto da humanidade ele admite que a maioria ficou impermeável as novas idéias levantadas. Uns por serem reacionários: “os adeptos da tradição que acreditam que outros sabem o que eles próprios não sabem” e, assim, se deixam levar por líderes tão ignorantes quanto eles. É o que Jesus disse: “Um cego guiando outro cego”. Outros porque são filhos da “credulidade, da aversão à dúvida, por pedantismo cultural, por receio de contradizer, por parcialidade, por negligência na pesquisa pessoal e pela tendência a dar-se por satisfeito com conhecimentos parciais”.
Estou falando da opinião de Adorno por causa do que soube traduzindo a revista Astronomia: a insistência dos cientistas em compreender os buracos-negros.
Os astrônomos conseguiram estudar o entorno de um enorme buraco negro nas profundezas do núcleo de uma galáxia ativa distante usando novos dados do Observatório Spaceborne XMM-Newton que não "ve" luz e sim detecta raios x. A galáxia conhecida como 1 H 0707-495 foi observada durante quatro períodos de 48-hora-órbitas do XMM-Newton em torno da terra, a partir de Janeiro de 2008. O buraco negro no centro da galáxia está parcialmente obscurecido por nuvens de gás e poeira, mas estas observações atuais revelaram as profundezas íntimo da galáxia.
Andrew Fabian, da Universidade de Cambridge na Inglaterra, que encabeçou as observações e a análise do material coletado disse: "Agora podemos começar a mapear fora da região imediatamente em torno do buraco negro,". Um enorme buraco negro é invisível porque não emite luz, mas pode ser notado porque produz uma quantidade imensa de Raios x. Átomos de ferro, entre outros elementos, emitem raios x com uma série de aspectos característicos: velocidade dos átomos de ferro em órbita, pela energia necessária para os raios X escapar do campo gravitacional do buraco negro e na vastidão em torno do buraco negro. Esses recursos deram aos astrônomos a capacidade de estudar os arredores que têm duas vezes o raio do buraco negro propriamente dito. O XMM-Newton detectou dois modelos das emissões brilhantes nos raios X de ferro refletido que astrônomos nunca tinham visto juntos em uma galáxia ativa. Esses modelos brilhantes são conhecidos como o ferro L e linhas de K e ficam tão brilhantes somente se houver uma alta abundância de ferro. Encontrar tanto nesta galáxia sugere que o núcleo é muito mais rico em ferro que o resto da galáxia. A emissão de raios-X varia em brilho com o tempo. Durante a observação, a linha de L de ferro foi brilhante o suficiente para que o observatório XXM-Newton seguisse suas variações. Uma análise estatística meticulosa dos dados revelou uma defasagem temporal de 30 segundos entre alterações na luz de raios-X observados diretamente e os vistos após sua reflexão no disco galático. Este atraso no eco ajudou os cientistas a medir o tamanho da região refletora, o que conduziu a uma estimativa da área em torno do buraco negro de 3 a 5 milhões de massas solares. As observações das linhas K dos raios x de ferro também revelam que o buraco negro é capaz de engolir o equivalente a duas Terras por hora o que ultrapassa o limite teórico da sua capacidade alimentação. A equipe continua a controlar a galáxia usando sua nova técnica. Fabian, diz: "O crescimento do buraco negro é um processo muito confuso devido aos campos magnéticos que estão envolvidos. Longe de ser um processo contínuo, um buraco negro se alimenta de seu entorno de um modo muito confuso."
A nova técnica permitirá que os astrônomos mapeiem o processo em toda a sua complexidade, tornando conhecidas regiões anteriormente invisíveis nas bordas deste e de muito outros enormes buracos negros.
Vale a pena um sujeito comum saber isto? Não sei.

sábado, 18 de julho de 2009

Suspendi minha assinatura do jornal.


Suspendi minha assinatura do jornal. Gostava de ler os articulistas, Arnaldo Jabour, Ancelmo Góes, Miriam Leitão e Arnaldo Bloch, mas depois de meses não se tem mais o que aprender com eles. Dizem que a existência ficou tão corrida que mesmo um cronista que escreve profissionalmente e é pago para pensar e nos mostrar uma visão original e própria da vida não tem mais tempo de refletir, então ficou tudo igual, uma pausterização que parece ser pensada para nos fazer burros e nos controlar. A propósito disto o filósofo Adorno tirou uma idéia nova de um trecho da Odisséia, de Homero, aquele em que o navio de Ulisses passa pelas sereias. Dizia a lenda: quem ouve o canto delas se desvia de seu objetivo e se perde. Assim, o intrépido capitão para não perder nenhum de seus marinheiros ordena que todos tapem bem os ouvidos com cera e se empenhem nos remos sem olhar para os lados, enquanto ele mesmo manda ser amarrado ao mastro; Ulisses ouvia o mavioso canto mas não podia segui-lo. O filósofo vê nesta história da mitologia o controle sobre o que se ouve, lê ou vê, em nosso tempo. A massa, o homem comum, trabalhador, igual aos marinheiros da nau, é cada vez mais exigida no trabalho e cansada e sem tempo pouco pode pensar ou cuidar de seu desenvolvimento como pessoa. A minoria que cabe dirigir a sociedade, informar e ensinar, como Ulisses, fica amarrada a tantas obrigações que se torna controlada pelo sistema e não consegue nos apontar um caminho melhor para esta existência. Até tomam ciência de novas idéias, de uma visão inovadora, mas não podem aprofundar-se nela, desenvolvê-la e passar para aqueles sob sua influência. Assim vivemos cercados por pensamentos, no rádio e televisão, no cinema e jornais, nas músicas, nas igrejas e câmaras políticas que muito pouco ou nada nos diz que nos desvie desta corrida da manada em que nos metemos. Correndo e correndo sem saber para onde e porquê.
Agora, o tempo de leitura – que aumentei – gasto com livros. Aí vale a pena. Como diz Roberto Carlos, “são tantas emoções” quando se lê um livro!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Um jeito de viver


O dia está uma pintura. Viajando de ônibus para Nova Iguaçu admiro a paisagem verde e azul dourada pelo Sol forte ao mesmo tempo que leio Brasil País do Futuro. Na já longínqua década de 1950 o escritor assim descrevia o brasileiro: “Em São Paulo, o operário, adaptado a uma organização européia e num clima mais favorável, produz exatamente o mesmo que qualquer outro doutra parte do mundo. Mas mesmo no Rio de Janeiro observei, centenas de vezes, pequenos sapateiros e alfaiates trabalharem até tarde da noite em suas acanhadas oficinas e deveras me admirei de como nas construções com um calor infernal, em que só o erguer o chapéu do chão já é um esforço, o difícil trabalho de carregar material continua sem interrupção em pleno sol. Não são, pois, absolutamente a capacidade, a boa vontade e a velocidade individuais que são inferiores. O que no conjunto falta é a sofreguidão européia ou norte-americana de por meio de esforço dobrado progredir na vida mais depressa; é, pois, antes certa falta de estímulo que mantém em nível baixo a dinâmica total. Os indivíduos aqui não querem muita coisa, não são sôfregos. Após o trabalho ou nas horas do trabalho, conversar um pouco, tomar café, é natural. Ter sua alegria na vida doméstica e no lar é para a maioria o suficiente. Todos os graus do bem-estar, da felicidade, combinam-se com essa calma e serenidade. Sucede freqüentemente, segundo ouvi de várias pessoas, que após o recebimento do salário, o trabalhador falta dois, três dias ao serviço. Cumpriu com diligência e presteza o seu serviço na semana anterior e ganhou o suficiente para, da maneira mais modesta, modestíssima, passar dois dias sem trabalhar. Para que então trabalhar esses dois dias? Rico não poderá ficar com esses poucos mil-réis; é, pois, preferível gozar calma e comodamente esses dois ou três dias. Talvez seja necessário termos visto a exuberância da natureza daqui para compreender isso. Ao passo que numa planície da Europa, triste e sem encantos, o trabalho é a única maneira de evitar a depressão".
Infelizmente nós brasileiros já embarcamos nesta correria européia, até no futebol. Agora, os cientistas e ecologistas dizem que a humanidade, se quiser sobreviver, terá que aprender com o jeito brasileiro de ser, tranquilo, sem invejar quem tem muito e produzindo o necessário para viver. São os ciclos da vida.
(a foto foi "emprestada" do site http://www.noturnafm.com.br/humor.htm )

domingo, 12 de julho de 2009

Mudando o modo de viver


A necessidade é a mãe de todas as coisas, sim, de todos os seres vivos. Outro nome dela é mãe natureza. Mas assim como a gestação de um novo ser exige desconforto e dor, o parto de uma nova maneira de pensar ou a aplicação de novas leis à sociedade requer negociações muitas vezes dolorosas. Foi como se deu com o fim da escravidão. O livro Brasil, País do Futuro, conta: "De ano para ano o problema da escravidão se torna o centro da discussão, cada vez mais forte se torna a pressão dos grupos liberais para de uma vez acabar com a 'negra ignomínia', mas, no mesmo grau, ou talvez em grau ainda maior, cresce a resistência dos círculos agrícolas, que, não sem razão, temem que uma medida tão súbita cause uma crise catastrófica ao país, de cuja economia nove décimos assentam no trabalho de escravos". É assim, parece que uma grande mudança vai acabar com a economia de um país, como se repete agora, no século 21. Quando os cientistas insistem que a emissão de gases poluentes está colocando a vida na Terra em perigo as indústrias teimam em dizer que mudanças na maneira de produzir vai gerar multidões de desempregados e acabar com a economia. A história se repete.
As pessoas sensíveis sofrem aguardando mudanças que demoram como, no tempo da escravidão, sucedeu com o imperador. O livro conta: "É imensamente penoso, para D. Pedro II, esse homem culto, em suas visitas à Europa, ante os grandes representantes da humanidade, cuja estima procura, ante um Pasteur, um Charcot, um Lamartine, um Vitor Hugo, um Wagner, um Nietzsche, ser considerado o soberano do único império que ainda tolera para os escravos o chicote e o ferreteamento". Quando com sua assinatura a herdeira, princesa Isabel, decreta o fim da escravidão o que não se mantém de pé é aquela forma de governo. "Quase sem ruído rola por terra a coroa imperial; também dessa vez, em que ela se perde, não é manchada de sangue, como quando foi adquirida; o verdadeiro vencedor moral é novamente o espírito brasileiro de conciliação”.
O livro Meio Ambiente (que estou lendo ao mesmo tempo) diz que quando o Clube de Roma, em 1971, avisou que o mundo tinha de parar a poluição e as nações ignoraram o aviso porque temiam confusão mundial “coube a delegação do Brasil liderar o movimento contrário a tese da estagnação, pregando a necessidade de uma maior conscientização dos povos da relação que existe entre o meio ambiente e desenvolvimento”. Liberal, o Brasil vai se adaptando e ensinando ao mundo como não é absolutamente impossível se conformar as necessidades de uma mudança no comportamento individual para que a humanidade continue.